Lucas Miranda

Adão

Adão

Ocre caminhar

D'olhos cansados à macieira


Olhara o corpo de esguio timbre,

Tanto daquela, quanto daquilo.


Semblante cálido ao piche anda

Quebrada a regra, ventos que sopram.


Fez a si homem na relva prata.

Dá vida o gosto de terra seca.


Sangrar-se-á.


Lucas Miranda

Lamentação

Lamentação

Outrora o templo de Deus habitara

Quente sua língua, s'alimentara

Desta que em riste sorvia n’alma: Maná; e Ambrosia.

 

De deus na boca tínhamos casa,

de nosso o lar, agora ingrato.


Desta suas mãos provia afago,

Dos pés daquele: a reverência

Torna-te agora senhor das armas,

piedade fora de ti nã'alcança.

Aqui jaz esperança, honra e furor:

à porta do paraíso.


Lucas Miranda

Caminham Adão e Eva no deserto

Caminham no deserto

Ah, Ah, que este solo que aos pés recua

Que a pele deste tanto é tão fina, assim pois não

costume tinha: o sol, perdida a graça, reclama-te!


Ah, queima, tão logo ao toque, fineto o véu: à separar-se.

No que ao firmar, ao separar-se: rubro vermelho sangue,

Marc'o caminho que rastejar-se.


Ah! Sorve o astro tais qualidades, do peito homem:

Sais à provocar-lhe, conclama à Deus rependimentos

Ah - diz - Deixe-me ao útero de mais uma vez: tornar-te.



Sobre areia, que é fina afiada faca, aliada à escuridão:



Percebendo-se de carne armadura, mais uma vez tocaram-se

Pois assim quis o altíssimo e era imperioso que o fizessem.

Pois assim, ao lento sangue: pulsar-te-ei, que ao primeiro toque permuta.

Permuta o tempo todas su’horas, gritando pare que aqui, aqui o deixe.


Assim, dizem os amantes, no pulular do tempo, das estrelas e da desesperança:

Adão... Adão... Eu te amo. Como era imperioso que o fizesse.

Eva... Eva... Eu te amo. Como era imperioso que o fizesse.


Lucas Miranda

Veem Adão e Eva a morte pela primeira vez

A morte

No colorido do tempo saber-se-ia dos desígnios de Cronos e sua ilícita atividade

Pois que ambos um só viram do farfalhar das asas parar o movimento.

Caía do céu pássaro que outrora voa, canta, e dos verdejantes vivos espalha sêmem e bem aventurança. 


Sangra a escuridão das horas, do mundo e sua impaciência,

Que nas inadequações da vida o homem encontra resistência e pranto seu próprio.


Assim quis o senhor:

Fome, males, a dor do mundo. Conquanto tente não se resolve, e o sentido, qual é?


O corpo:

Aquilo que eres máquina de se existires trará-te-a dores extremas

De criaturas, também que existem, sois invisivéis, males.

Não só do externo sofr’este o homem, tal qual doença grita o corpo:

Náuseas, cansaço, dores e acabamento. Grita. 


A alma: 

D’alma cansada sofreste o espírito, no amanhã, outro amanhã.

Como este em piche perde as vontades, caminha abaixo sê sim naufrágio. 

Perpétua languidez: tão logo falta, em vida: significado.